31 outubro 2005

Folhas Brancas de Outono

É no espairecer da tarde, naquele lusco-fusco entremeado de nuvens em que observo um improvável por do sol que, por vezes, fico sem a certeza de pertencer ainda a este mundo.
Entre dois cigarros tento fazer o balanço de um dia e invariavelmente fico com a sensação de ter algo por acabar, de ter esquecido qualquer coisa que a seu tempo há-de revelar a sua importância. Olho em volta abarcando a praia agora cinza pintalgada de seres que passeiam de mão dada beijando-se ocasionalmente num rasgo de juventude ainda fértil em ideias de vida e projectos de felicidade e penso nos seus futuros. Quantos deles hão-de passar a vida a fazer o que gostam de fazer, quantos deles hão-de ter a hipótese de construir a vida à sua medida? Quantos de outros hão-de sobreviver em trabalhos que lhes foram destinados simplesmente por troca de um ordenado? Quantos vão ser eternamente enamorados e quantos hão-de passar a cumprir o dever matrimonial? Quantos ainda hão-de manter-se fiéis aos seus e a si e quantos hão-de ultrajar o seu ser ou serem ultrajados na sua alma?
Desço à terra para observar a folha em branco deitada na mesa mesmo ao lado do círculo molhado feito pelo último copo.
Peço outro, acendo um cigarro, pego na caneta.

É no espairecer da tarde, naquele lusco-fusco entremeado de nuvens em que observo um improvável por do sol que, por vezes, fico sem a certeza de pertencer ainda a este mundo, escrevo. E a seguir, nada.
Dantes desenhava em vez de escrever. Desenhava em tudo o que aparecesse, papéis, guardanapos, toalhetes, carteiras de fósforos, desenhos simples na sua confusão e sempre a preto e branco, como a praia que agora vejo à minha frente. Ultimamente, nem por isso.
Falta-me a mão para o desenho, a paciência para a escrita, a alma para pensar. Tenho desenvolvido a arte de entregar folhas brancas por capítulos. Sempre como se tivesse esquecido algo importante.
Há qualquer coisa no fim do dia que me faz balançar entre o sentido do dever cumprido e a sensação de que não fiz absolutamente nada. Talvez seja aquele retorno a casa, aos meus, sem nada de novo para dizer.
“Então, tudo bem? Como te correu o dia?”, perguntaremos uns aos outros. “Então? Foste feliz hoje?”, perguntaríamos se quiséssemos saber. “O que posso fazer para que fiques feliz agora?”, seria a pergunta última e, a partir daí trabalharíamos no assunto.
No entanto, por minha parte, a resposta a tal pergunta seria extremamente difícil. É que, a olhar a praia agora cinza, não consigo pensar no que me falta para a felicidade. Não consigo sequer definir a felicidade que tenho ou não, não sei.
Os seres de mão dada vêm já para cima que o amor que sentem não chega ainda para os proteger do frio que começa a fazer-se sentir.
Olho para a folha em branco uma vez mais. Arquivo-a junto com todas as outras.
Tanto a dizer, tanto a pensar, nada a escrever.

Vou para casa, para o quente da minha casa, para o quente das mãos que lá me esperam.
A felicidade deve ser uma coisa muito parecida com isso.
A folha amanhã deverá ser outra.

3 Comments:

At 31 outubro, 2005 11:51, Blogger Lia C said...

Pode haver felicidade na inquietação? Pode haver felicidade sem inquietação?
...

também deixei de desenhar, aqui há tempos...e também a mim sobram as folhas em branco e as ideias engasgadas algures entre a alma e a mão... deve ser cósmico, penso para não chorar.

Um beijo e um bom dia

 
At 31 outubro, 2005 11:52, Blogger Lia C said...

é bom ter-te por aqui, esqueci-me eu de dizer. mas sinto.

 
At 02 novembro, 2005 00:42, Blogger Almerinda said...

folhas de mim...

dentro das minhas
folhas
sonho as palavras
falo em silêncio
leio entrelinhas
visto-me de letras
envolta nas emoções
dispo-me de medos
insatisfeita
deslumbro-me com ilusões
navego num mar de segredos
que não me contei
suspiro um vendaval
de desabafos celestiais
recolho-me em conchas e búzios
em forma de oração
(re)vejo-me em reflexos de espelhos
lambo as feridas do passado
vivo o ontem
o hoje e o amanhã
lavo as lágrimas
e nasço num futuro
oferecido agora
em mil sorrisos
a preto e branco coloridos
colo-me em mil pedaços
poço de contradições
desejo(-te)
por entre as folhas
e descanso tranquila!

Bedina

...em pleno Outono...

Beijinhos grandes

 

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